A IGREJA COMO LEGISLADORA DO RACISMO ESTRUTURAL
Por Moyses Lago
Papa Nicolau V quando, do início das grandes navegações, no século XV, viu de bom grado o contato dos europeus com os africanos, apontando para a possibilidade da prática da escravidão.
Assim, em 1452, autorizou “o rei de Portugal a privar os mouros e os pagãos de sua liberdade”. Atitude, não diferente, que teve, em 1488, o papa Inocêncio VIII, ao aceitar “um presente de Fernando da Espanha de uns cem mouros e distribuiu-os entre os cardeais e a nobreza” (DAVIS, p. 122).
A postura desses dois papas se sustentava no entendimento que a igreja construíra de longa data sobre a escravidão. Santo Agostinho (séc. IV/V) e santo Isidóro de Sevilha (séc. VI/VII) defendiam, por exemplo, que a escravidão estava vinculada ao pecado e que, portanto, essa condição decorria da vontade divina.
Esse absurdo muitas vezes se apoiava em versículos da bíblia. Segundo o livro de Gênesis, Noé teria tido três filhos (Sem, Cam e Jafé), os quais foram responsáveis por povoar a terra. Nesse mito, Noé, após se embriagar com vinho, deitou-se nu em sua tenda. Seu filho Cam, cujo filho é Canaã, teria visto sua nudez, o que era extremamente recriminado pelos hebreus, e contado para seus irmãos.
Quando seu pai soube do ocorrido, amaldiçoou o filho mais novo de Cam com a seguinte frase: “Maldito seja Canaã; seja servo dos servos de seus irmãos” (Gênesis 9:25).
O nome Cam estava assiciado a ideia de “quente”, “queimado” ou “trevas”. Canaã, filho de Cam e o neto amaldiçoado por Noé, quer dizer “embaixo”, transmitindo, assim, uma ideia de inferioridade, e teria gerado os mongóis, chineses, japoneses, ameríndios, esquimós, polinésios. Um dos filhos de Canaã se chama Cush, sinônimo de “preto”, e de acordo com a lenda teria originado os etíopes, sudaneses, ganeses, pigomeus, aborígines australianos(Nova Guiné _PEREIRA IVO/JESUS, 2019, p. 50-51).)
FONTE:
DO MITO DE CAM AO RACISMO ESTRUTURAL - HIRAN ROEDEL.



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